The Ocean Within
Imago Garage
Rua do Vale de Santo António 50A, 1170-381 Lisboa
4ª feira - sábado → 14h30 – 18h30
Artista
Yvette Monahan
Yvette Monahan (1977) é uma fotógrafa e artista irlandesa. A sua prática explora as qualidades intangíveis das paisagens exteriores e interiores, entrelaçando elementos de mito e geografia. Desde que concluiu o seu MFA em Fotografia na Ulster University, em 2013, tem apresentado o seu trabalho em numerosas exposições, incluindo na RHA Dublin, Belfast Exposed, PhotoIreland, Royal Photographic Society (Bristol), Unseen (Amesterdão), Fotohof (Salzburgo) e no Festival de Lishui (China). Foi também nomeada três vezes para o prémio Pictet de Sustentabilidade e Ambiente, refletindo o seu compromisso com uma narrativa significativa.
yvettemonahan.com | @yvettemonahan
No seu livro O Mar que nos Rodeia, de 1951, Rachel Carson escreveu que o nosso «mundo é um mundo de água, um planeta dominado pelo seu manto oceânico, no qual os continentes são apenas intrusões transitórias de terra acima da superfície do mar que tudo rodeia». (1) É uma advertência de que o oceano não é apenas um pano de fundo para a vida na Terra, mas o seu coração regulador. A observação de Carson sustenta e estrutura este trabalho: para compreender o oceano hoje, devemos reconhecer que somos a sua continuação, e não algo à parte.
Como, então, compreender um mundo subaquático que já não habitamos, mesmo se continuamos a transportá-lo dentro de nós — nas nossas células, no nosso sangue, nos nossos sentidos? Como escreveu Carson, «todos os animais do mundo seguiram hábitos aprendidos no mar antigo». O ouvido dos mamíferos é um exemplo perfeito. Ao longo da evolução, os arcos branquiais dos nossos antepassados peixes transformaram-se na cartilagem do ouvido externo. (2) Construída sobre uma arquitetura genética partilhada, esta estrutura permite ao peixe respirar e ao mamífero ouvir. No útero, o ouvido humano começa como uma pequena dobra em forma de concha que gradualmente se torna a estrutura oval que canaliza o som para dentro do nosso corpo. Herdamos o oceano, o oceano existe dentro de nós.
Os nossos antepassados aquáticos permanecem no seu mundo submerso, e também eles continuam a ouvir. Os peixes têm ouvidos, ou otólitos, pequenas formações internas de carbonato de cálcio. Os cientistas utilizam os otólitos para determinar a idade dos peixes, mas também para vislumbrar o passado. Cada otólito transporta cronologias inscritas no osso: migrações registadas, épocas de escassez e abundância, águas recordadas. Os otólitos funcionam como testemunhas silenciosas, como sensores remotos, à deriva como mini-submarinos sobre fundos marinhos que nenhum ser humano jamais irá alcançar. Os peixes ouvem numa linguagem diferente, feita de sinais químicos e impulsos elétricos moldados por ondas indomáveis, marés turbulentas e correntes sinuosas. A água ressoa sobre e através do otólito, criando mapas auditivos do ambiente subaquático rítmico. Os otólitos são dispositivos biológicos de escuta, traduzindo o oceano em forma.
As escamas do salmão também falam a sua própria linguagem. A sua superfície estriada revela um domínio de cartografia invisível e memória coletiva — onde o salmão se alimentou, quando se deslocou, que águas moldaram a sua vida.
Quando visitei a Estação de Salmão do Rio Bush, em Bushmills, na Irlanda do Norte, fiquei comovida ao ouvir os cientistas descreverem cada escama como uma história em si mesma, um fractal de toda uma paisagem, um levantamento cartográfico de águas vividas. A sua abordagem ecoa a convicção de Tim Robinson de que os mapas não são registos fixos, mas arquivos vivos. (3) Os salmões oferecem-nos estes relatórios intermédios, cartografias pessoais das suas migrações desde o rio nascente até ao oceano aberto e, com sorte, de regresso a casa.
Enquanto smolts em maturação, os salmões selvagens gravam o cheiro e o sabor dos rios onde nasceram antes de, num extraordinário ato de metamorfose, se adaptarem da vida fluvial à vida oceânica. Os seus olhos deixam de ler os vermelhos do rio para perceber os azuis intensos; as guelras invertem o processamento do sal, passando a expelir água salgada em vez de a absorver. Aprendem a render-se à corrente, deixando que o mar os embale e transporte para um mundo de forças maiores.
Os salmões juvenis desenvolvem células capazes de detetar o campo magnético da Terra, uma bússola ancestral profunda que os liga ao núcleo fundido do planeta. Em conjunto com os sinais visuais do sol e das estrelas, esta topografia magnética guia-os através de vastos corredores oceânicos de pertença. Em tempos, acreditava-se que ao consumir salmão se podia herdar a sua sabedoria sensorial. Os mitos persistem para além das histórias inscritas nas suas escamas.
As enguias juvenis também seguem forças celestes invisíveis num percurso de regresso a casa.
Na fronteira entre cinco condados da Irlanda do Norte, o Lough Neagh alberga uma população de enguias que embarca numa migração extraordinária. Durante as marés de lua nova, as enguias dirigem-se para a zona mais salgada do Atlântico, o Mar dos Sargaços, onde os adultos desovam e morrem. As larvas regressam à deriva através do oceano até à mesma lagoa.
As urtigas-do-mar-do-Atlântico entram nesta narrativa ao mesmo tempo que o seu número aumenta em águas mais quentes. Fotografadas no aquário de Lisboa, ocupam um limiar frágil entre a beleza e advertência. Estes seres fantasmagóricos não têm cérebro, coração nem pulmões, e tornaram-se emissários do ritmo alterado do oceano e dos seus espaços vazios.
A urgência deste momento é evidente. Em 2024, apenas dois por cento dos salmões selvagens regressaram ao Rio Bush, uma diminuição acentuada face aos trinta e cinco por cento de há uma geração. As migrações alteraram-se, as cadeias alimentares tornaram-se mais frágeis. O Lough Neagh encontra-se em colapso ecológico. Na zona económica exclusiva da República da Irlanda, as Áreas Marinhas Protegidas cobrem apenas oito por cento do território — muito menos do que o necessário para salvaguardar os stocks de peixe e restaurar os ambientes marinhos.
Se os peixes transportam a memória do oceano, o que acontece quando já não há nada que sustente este arquivo ancestral? O que acontece quando a memória se desvanece? Quando os salmões abandonarem o Rio Bush pela última vez, quem conhecerá os seus mapas magnéticos? Quem contará as histórias outrora gravadas nos otólitos e nas escamas? A perceção, a memória e a renovação vão cessando à medida que o oceano perde os registos da sua própria linguagem.
Talvez no passado tenhamos canalizado o som com os nossos ouvidos em forma de concha, mas já não estamos a ouvir. O tecido acústico do planeta está a desfazer-se, perturbado pela extinção, pela escassez e pelo ruído, com os seus ritmos naturais a fragmentarem-se. (4) Precisamos de um novo entendimento dos nossos semelhantes — da cognição e consciência dos peixes. Se nos maravilharmos com a sua singularidade, «com a forma como pensam, sentem e aprendem, poderemos reconhecer a profundidade da nossa ascendência partilhada», nas palavras de James Bradley.
Talvez o que agora seja necessário seja uma história diferente, na qual os peixes sejam celebrados não como mercadoria, mas como parentes, honrados como criadores de mitos, entidades sensoriais e guardiões de um passado planetário.
Carson escreveu que «quanto mais claramente conseguirmos concentrar a nossa atenção nas maravilhas e realidades do universo, menos inclinação teremos para a destruição». (5) Setenta e cinco anos depois, o seu apelo é mais urgente do que nunca. É tempo de prestar atenção, de escutar abaixo da linha de água, de recordar o oceano dentro de nós.
Agradecimentos
A artista quer agradecer ao Dr Ewan Hunter, Dr Adam Mellor, Dr Richard Kennedy e a toda a equipa no Oceanography and Limnology Group, Agri-Food and Biosciences Institute (AFBI), na Irlanda do Norte. O projeto Ocean Within foi desenvolvido no âmbito de uma comissão do Belfast Photo Festival, com o apoio da National Lottery Heritage Fund e do AFBI. O projeto The Real Map of Ireland é baseado em dados do INFOMAR, o programa nacional irlandês de mapeamento dos fundos marinhos. Financiado pelo Department of the Environment, Climate and Communications (DECC), e co-gerido pelo Geological Survey Ireland e pelo Marine Institute. O seu objetivo é o mapeamento completo das águas territoriais para o desenvolvimento sustentável dos recursos marinhos da Irlanda. Agradecimentos também a Sean e Iseult por todas as aventuras oceânicas.
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